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hoje (ou amanhã)

3 de dezembro de 2015

Acordou-se amarga
Pálpebras relutantes
Mãos inquietas
Ventre latejante

Levantou-se lenta
Breve, inconstante
Água para o chá
Pausa para lamentar

Vestiu-se contrariada
Toda cicatrizes e lágrimas
Pediu intervenção divina
Calada, porém revoltada

Despediu-se anestesiada
Olhos no chão, peito em chamas
Viu-se no espelho da partida
Nua
Triste
Latente

Só.

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a verdade

12 de março de 2013

253158_336366979808434_2028723513_n_large– Não posso.

Ele me olhou com uma expressão decepcionada e tirou os dedos do meu rosto. Deu um sorriso forçado, respirou fundo e começou a falar.

– Mas você quer… Não quer?

Olhei aqueles olhos. Castanhos, profundos, latentes. Suplicantes por uma resposta. Eu não podia mais adiar o sentimento dele. E nem o meu.

– Eu quero. Mas não posso. Não agora.

Ele sabia. Afirmou com a cabeça, levemente, e sorriu. Acho que entendia o que eu queria dizer com tudo aquilo. Continuei.

– Olha pra mim – ele olhou – Eu quero muito que isso aconteça. Tanto quanto você. Mas eu quero que aconteça da maneira certa, entende?

É claro que entendia. Entrelaçou meus dedos nos dedos dele. Beijou minha mão, num gesto tão doce que as palavras sumiram dos meus lábios. Restamos ele e eu, perdidos em nossa própria dúvida, querendo consumar a nossa própria certeza. A vontade era sufocante e a tentação pulsava entre nós. Meu corpo doía, meus sentidos queimavam. Ele respondeu.

– Eu espero.

Sorri, e a pressão dos dedos dele nos meus dedos se intensificou.

– Prometo que não demoro.

Num impulso que eu nem sei de onde veio, beijei de leve o rosto recém-barbeado dele. Quis me levantar, mas ele não deixou. Ao invés disso, me segurou forte em seus braços e me envolveu num aperto que poderia ter durado a vida inteira. Mas foram apenas alguns segundos. Quando finalmente nos afastamos e ele me encarou, colocou uma mecha de meus cabelos atrás da orelha e sorriu. (Ah, aquele sorriso…)

– Vai lá.

E lá fui, à procura de algo que eu precisava fazer desaparecer. Para tornar o meu querer em poder, eu precisava bater de frente com o medo – o tipo de medo que antecede algo muito bom. Eu sabia que, quando tudo virasse pí, ele estaria lá para me fazer renascer das cinzas. Como um pôr-do-sol que nunca acaba, os olhos dele presos nos meus tornariam aquela dor muito mais suportável. Para todo o sempre.

sobre novos horizontes

7 de março de 2013

tumblr_mj9emf22561rhqnt3o1_500_largeAs mãos invisíveis apertam meu pescoço
Eu sufoco, me afogo, me contraio
Em chamas, me nego a partir
E permaneço imóvel, na sala vazia

No instante em que tudo retorna
Eu me lembro dos dias de glória
Será que realmente existiram
Ou foram fruto daquela mente insana?

Me pergunto, dia após dia
O que me trouxe à superfície desperta
Em que a liberdade reina, invicta
E, sobre mim, brotam possibilidades

Agradeço aos céus pelo fim do encantamento
Do faz-de-conta, do vamos-fingir-que-somos
E adormeço, cálida em pensamentos
De um amanhã coberto de estradas

(Enfim, estou livre. E libertar-se é ser.)