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o som do silêncio

4 de fevereiro de 2011

Recordações. Meu quarto apertado guarda lembranças do verão que passou (e  que ainda não se foi). Eu deito na cama, eu fecho meus olhos. Eu te vejo. Eu  consigo ver suas mãos percorrendo meu corpo. Eu consigo enxergar seus olhos  escuros no escuro do meu quarto apertado. Aqui, no lugar que fazemos nosso a  cada verão, é onde tudo fica quando você se vai (e até você voltar). Você sobe  naquele ônibus lotado de pessoas que não ligam para a sua presença ali. (E como  podem elas não ligar?). Eu tenho de enfrentar aqueles três degraus que  sussurram “até mais” pra você. Mas dói. E eu tento sorrir pra você, e tento  conter as lágrimas pra te ver partir feliz. É só quando o ônibus lotado vai embora  que meus olhos explodem, salgados. E eu morro por alguns minutos. Eu sufoco.  Eu quero correr atrás daquele ônibus lotado e ir junto com você. Eu já sinto sua  falta me socando o estômago o tempo inteiro. E o resto do meu dia só serve pra  lembrar do verão maravilhoso (e que só é verão quando você está). E eu sinto  seu cheiro nos meus lençóis. E eu me agarro às suas camisetas, aquelas que  ficaram no meu armário.  E eu sinto sua ausência gritando bem alto e me  deixando surda.

Fico esperando a  campainha tocar e você entrar em casa, esbaforido, dizendo que desistiu de viver longe de mim. Eu sei, não vai acontecer. Mas poderia. E eu fico esperando. Então eu paro e penso na nossa casa, na nossa vida, no nosso “nós” do futuro. E eu sorrio e sinto o gosto salgado dos meus olhos. E o gosto fica doce. Eu te chamo, eu te ligo, eu te amo. Volta logo. Diz pra mim que vai passar rápido (como você já disse um milhão de vezes). Diz que vai valer a pena a dor, a saudade e a frustração. E diz também que as coisas boas são muito, muito maiores que tudo isso. Toda essa dor e saudade. Que isso é bom. Que vamos lembrar disso tudo sorrindo, em nossas cadeiras de balanço em uma varanda qualquer. Diz que é por pouco tempo, e que nós temos uma vida toda pra viver. Juntos. E eu vou argumentar e dizer que não, que a vida é o que acontece enquanto nós estamos ocupados fazendo planos. E você vai rir e dizer que essa frase é do John Lennon, e que eu sou sua menina e que você me ama porque eu sou sua melhor amiga. E nós vamos rir.

Eu vou desligar o telefone, amor. Mas antes me diz que isso tudo vai passar rápido, e que eu vou aprender a não sofrer (tanto) quando você for embora (ou quando eu me for). Me diz que a saudade é uma coisa boa, que sentir a sua ausência física não retira sua presença de mim e de tudo que eu faço. Tudo bem, amor. Me liga quando chegar, tá? Não precisa me agradecer. Você me faz feliz demais. Vai com Deus e volta logo. Traz aquele salgadinho de pimenta que só existe na rodoviária (malditos supermercados!). Tá bom. Eu também te amo muito. Volta, tá? Tá bom. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo.

*Ao som de: Simon & Garfunkel – Bridge over troubled water

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One Comment leave one →
  1. 16 de fevereiro de 2011 5:05 AM

    te achei num dos comentários do duelo de escritores. não vi o seu texto publicado lá, mas li os daqui e gostei muito.

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